No debate promovido pela MC para o lançamento do livro Fé e descrença, de Ruth Tucker, Luiz Felipe Pondé, filósofo ateu, iniciou sua exposição falando sobre alguns pensadores que colocaram a teologia de joelhos.
Para ele, Nietzsche (filósofo alemão), Freud (fundador da psicanálise) e Darwin (naturalista) foram implacáveis ao destruir o “conceito de Deus criado pelo homem”. O avançado da hora não permitiu que ele aprofundasse o golpe mortal supostamente dado por Darwin contra Deus, mas foi claro sobre a visão de Nietzsche e Freud sobre o fenômeno religioso. O primeiro argumentava que a religião era fruto do medo de não encontrar o sentido da vida. Daí sua tese de que Deus fora criado pelo ser humano para dar sentido à vida.
Por sua vez, Freud apontava a crença em Deus como fruto de um trauma infantil, resolvido pela figura de Deus, que aliaria as características de um pai poderoso às de uma mãe amorosa. A crença em Deus, segundo Freud, impediria o amadurecimento do ser humano.
Infelizmente, não houve tempo para que Pondé pudesse explorar melhor os argumentos de Nietzsche, Freud e Darwin. Contudo, exceto pelo fato de que não acredito que Deus é fruto de minha imaginação, o curioso é que as razões que sustentam a defesa de Nietzsche e Freud são, para mim, motivações para crer (e não descrer) em Deus.
Nietzsche nos via como medrosos (muitas vezes somos... mas você chamaria de medroso quem vive o cristianismo na Coréia do Norte?) e Freud como meninões. E daí? Creio que a experiência de relacionar-se com Deus se dá em situações cotidianas de medo e carência. A maior descoberta que o ser humano pode fazer (e que demonstra coragem!) é encontrar o Deus que o fortalece, consola e anima. Além disso, como escreveu Erasmo de Rotterdam, “bobo é todo aquele na presença de Deus”. Quanto mais saudável é nossa relação com o criador, mais estupefatos ficamos em sua presença.
Se é verdade que podemos cultivar um relacionamento doentio com Deus ao criar uma imagem falsa do Criador (justiceiro, impassível, carrancudo, legalista), também não se pode negar que é possível viver na dependência dele sem perder um milímetro de dignidade.
Postei essas observações como pretexto para apresentar a nova obra de Brennan Manning:
Como poucos, Manning menciona nossa covardia e meninice como aspectos que nos devem conduzir à aproximação com Deus. O que ele não suporta são os papéis que criamos para nós mesmos com o objetivo de camuflar o que de fato somos. O texto de Manning explora com maestria as possibilidades de uma relação saudável e digna com Deus, de impossível concepção para Nietzsche e Freud, brilhantes pensadores que não conheceram a natureza amorosa de Deus.
Pois bem, em Meditações para maltrapilhos, Manning apresenta seu “antidevocional”. Isso mesmo, tradicionalmente os devocionais são coleções de textos inspiradores. Aqui não. Meditações para maltrapilhos oferece textos inquietadores escritos ao longo de 22 anos intensamente vividos, em que se refletem os altos e baixos de sua vida, despertando a confiança radical do autor em Jesus de Nazaré.
Meditações para maltrapilhos apresenta a vida sem floreios ou rodeios. Mesmo destacando a realidade nua e crua de todos nós, Manning consegue sinalizar a razão de sua esperança. Leia o que o autor escreve:
Compartilho essas reflexões com um alvo específico em mente: não desejando transmitir pensamentos inspiradores, mas esperando despertar, ressuscitar e reavivar uma confiança radical e inamovível no Deus representado em forma corpórea no Carpinteiro de Nazaré.
Creio piamente que o esplendor de um coração humano que confie na verdade de ser amado de modo incondicional confere maior prazer a Deus e lhe traz mais deleite do que a catedral mais magnífica jamais erigida ou o órgão mais estrondoso jamais tocado.
Confiar de forma inabalável hoje num maltrapilho é algo extraordinário, porque em geral exige um grau de coragem que chega às raias do heroísmo. Quando a sombra da cruz de Cristo recai sobre as pessoas na forma de fracassos, pesares, rejeição, abandono, desemprego, solidão, depressão, perda de um querido; quando ficamos surdos a tudo o mais, exceto ao bramido estridente da nossa própria dor; quando o mundo ao redor repentinamente se apresenta como um lugar ameaçador e hostil, bem podemos bradar de angústia: “Como um Deus de amor permite que isso aconteça?”. E assim é lançada a semente da desconfiança, obrigando-nos a uma situação de escolha: nos afastaremos de Deus ou nos voltaremos em direção a ele mesmo quando a escuridão o esconde de nossa visão?
Escolher a luz de Deus na noite escura do desespero é um ato heróico de coragem. Continuo a deparar com essa escolha nos momentos mais sombrios, solitários e desalentadores de minha vida. Ao convidá-lo a unir-se comigo nessa viagem de maltrapilho, não peço mais de você do que peço de mim mesmo: que confie no amor de Deus não importando o que nos aconteça.
Meditações para maltrapilhos chegará em Outubro.




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